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A nuvem, ela e o grito banguela g6t2b

Um Dia de Cada Vez
Por Liz Valente

O sol bate na janela aberta. A nuvem abre caminho e ri pra ela, que nem nota. Segue adiante. Veste a roupa, desce a escada. Pe a mesa, esquenta a gua. Toma o caf esperando um sinal dos cus para ter a paz que tanto quer. A brisa sopra e toca o seu rosto amargurado de desgostos. Olha pro lado em busca de um lugar, algum abrigo para aninhar a alma. Perdida em devaneios, nem nota a flor, ou a pipa, segue o dia em melancolia. Os desalentos a guiam. O emprego que no queria, a cidade indesejvel, a moradia no alto da ladeira.

Descolorida, reprimida por anseios insaciveis e sonhos fora da realidade. Vive em seus pensamentos sem viver de fato o que lhe est disponvel. No cu, a dana da despedida, e as nuvens cedem lugar para uma ventania. Toca o sino da catedral, toca a banda no meio da praa, mas nem nisso ela v qualquer graa. Ouve apenas o toque do telefone, s que quando atende era a venda de um plano mais caro. Ela no d ateno contradio bvia, segue tentando, segue vivendo e reclamando.

Enfim tarde, que sbado vazio! As cores do cu so para ela indiferentes, mais interessantes a tela do seu smartphone. As nuvens retornam sincronizadas e mais uma vez desapreciadas. O tempo vira e cai uma garoa, porm tudo o que ela pensa na janela aberta. No sente o cheiro de terra molhada, no sente a pele sendo lavada, no se importa com o alimento dos arinhos. Quer mais do mundo e mais de Deus e nada disso lhe atinge. No entende de onde possa vir tanto descuidado por parte daquele que, vendo sua dor, no lhe responde. A garoa engrossa e vira chuva, o nibus caminha lentamente. No cruzamento, em frente a igreja, uma placa diz "eis que fao nova todas as coisas". Mas tudo que ela v "disse Jesus" e o outdoor da pizzaria ao lado.

O motorista assobiando lhe faz perceber que est distrada. Desce no prximo ponto. Busca abrigo num shopping camel onde d de cara com uma promoo de guarda-chuvas e capas de bblias. A Bblia exemplar est aberta no salmo 23 o qual memorizou quando criana. Compra um guarda-chuva com o dinheiro da janta e sente a fome apertar.

Sobe a Ladeira dos Mineiros, onde o boeiro foi consertado, mas, em sua opinio, no a de obrigao municipal. Os postes foram trocados, mas foi graas quele governador corrupto. As rvores esto sendo podadas em final de expediente, o trabalhador acena, gentil, e ela acha muito desnecessrio.

Nesse momento cruza um doido da cidade gritando banguela " vida amargurada!" Ele grita olhando pra ela. Ouve. Nunca houve momento mais inesperado. Enfim algo lhe alcana. O homem banguela e desinstrudo. Um louco lcido e preciso. "Amargurada", reverbera o grito do homem molhado.

A noite cai e cessa a chuva, a nuvem sorri pois h algo acontecendo. As nuvens esto em ajuntamento. No chove mais, mas a noite densa. A voz do homem ressoa no ar e ela pensa, pensa. O homem que descia a ladeira gritando, trazendo grande incmodo para as mesas de jantar trouxe um incmodo diferente para ela. Sua existncia ridcula. As nuvens juntinhas pareciam um rebanho, nem uma estrela ava por suas pernas. Ela no notou a formao, nem mesmo se deu conta da hora.

Subiu as escadas e fechou a janela, agachada secou a gua, e deparou-se com as manchas de suas mos. Ver as manchas foi para ela um comeo. No lamentou, nem mesmo fez comentrios. Apenas percebeu suas mos, haviam duas e funcionavam bem. At tinham manchas e sinais da sua vida. " vida..." no ousou afirmar para si. A nuvem impaciente soltou uma gargalhada e o som de trovo encheu a sacada. Ela olhou para o cu. Ver o cu foi para ela um movimento. Anos e anos apenas olhando para si e para suas vontades, nunca parou para olhar para fora. "Que noite escura", pensou, " vida..." essa frase no saa de sua cabea, mas no se permitia itir tudo.

No fosse aquele banguela. Aquele grito, aquela janela. No fosse sua vontade de algo mais. O dia terminaria como outro qualquer. Mas o grito enchia a sala. E toda agressividade daquelas palavras foram para ela um soco nos devaneios. O grito molhado dava-lhe poucas opes de sada. Se fosse verdade que triste seria, mas negar ela no podia. itir a verdade saindo da boca de um homem daqueles significando uma sabedoria obscura, seria esse o sinal que ela tanto procura? Pode haver algo de sublime em um maluco gritando?

Os troves cobriram seus pensamentos. A nuvem chorando, chorando. Tanto esforo, tantas tentativas. Finalmente ela sorria. Mesmo no sendo fruto direto do esforo da nuvem ainda assim ela sentia. Entrou num banho quente e decidiu dormir mais cedo. Satisfeita, deitou. Era a sua primeira gota de doura.

Liz Valente mestra em arquitetura e urbanismo. Tambm cantora, compositora e autora de 4 peas teatrais. Casada com Pedro Paulo e me do Joo, do Davi e da Maria.

>> Conhea o livro A Arte e a Bblia, de Francis Schaeffer.

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